Resenha: Os diários secretos de Charlotte Brontë, @editorarecord

29 novembro 2017
Levando uma vida reclusa no interior da Inglaterra com as irmãs Emily e Anne, o irmão viciado em drogas e um pai excêntrico à beira da cegueira, Charlotte Brontë sonha com uma história de amor tão ardente quanto as que cria na ficção. Mesmo sendo uma pessoa pobre, comum e sem amigos influentes, o lado impetuoso de Charlotte Brontë foi revelado nos livros que escreveu, como o famoso Jane Eyre, mas é nas páginas de seu diário que ela expõe seus sentimentos e desejos mais profundos. E também a verdade sobre sua vida, seus triunfos e decepções, a família, a inspiração para toda a sua obra, a paixão secreta e escandalosa por um homem que nunca poderia ser seu e o relacionamento intenso e dramático com o homem que aprendeu a amar: o enigmático Bell Nicholls. Os diários secretos de Charlotte Brontë é fruto de pesquisas extensas e mistura ficção com fatos históricos enquanto explora o coração apaixonado e a alma inquieta de Charlotte Brontë.
Essa leitura foi recomendada por uma querida amiga, que por sinal tem o mesmo nome que eu. Portanto, dedico essa resenha à Fernanda Conti Hahne, uma das melhores pessoas que conheci nesse ano!


Quando alguém fala em biografia, você pensa em quê? Geralmente a primeira palavra que vem à cabeça é documentário, ou então a pessoa pensa em fatos históricos. Não é todo mundo que gosta de biografia por causa disso, mas Os diários foi escrito em forma de ficção, tendo os fatos narrados em primeira pessoa, ou seja, pela própria Charlotte.

Eu adoraria contar muito do que acontece no livro, para vocês, mas sei que vou ser xingada pelo número de spoiler (risos). Algumas coisas não têm jeito, preciso mencionar, para dar continuidade à resenha. Então vamos lá:


Antes dessa geração, o sobrenome original da família era Brunty, Porém, o escrivão do cartório entendeu errado e registrou os descendentes como Brontë (trovão, em grego).

Charlotte e suas irmãs moravam apenas com o pai (a mãe era falecida há anos) e duas criadas. O pai as aconselhou a estudarem, tanto que financiou seus estudos, mas para serem professoras ou governantas, profissões bem aceitas para as mulheres daquela época. Contudo, elas não deram ouvidos ao pai e estudaram por conta, à noite, literatura grega e romana, além de fazerem traduções completas de obras latinas e resolverem problemas matemáticos complexos. Tudo isso aliado às costuras e assados, além das visitas aos pobres e as tarefas da igreja (seu pai era pastor).

Leia bem: era pastor, ou seja, ele continuou ajudando na igreja, mas, por conta de sua idade, a paróquia contratou um pastor auxiliar, chamado Arthur Bell Nicholls. Segundo Charlotte, ele era um homem desagradável. Isso se deveu ao fato de o Sr. Nicholls acreditar que as mulheres deveriam ficar apenas reservadas aos assuntos domésticos, e que o sr. Brontë tinha sorte por ter filhas solteironas para ajudá-lo em casa.

Sr. Nicholls parece olhar para Charlotte de forma diferente, segundo suas irmãs repararam, mas ela não acredita e não quer saber disso, por dois motivos: suas crenças são diferentes, além disso ele a chamou de solteirona enfeada.

No livro também iremos ouvir Charlotte falar muito de sua amiga Ellen, amizade esta que começou no internato onde estudaram por alguns anos, na infância. Falando em estudos, ela também relatará muito sua estadia na Bélgica, onde supostamente viveu um amor proibido. De lá, voltou triste e cheia de segredos.

Você lerá Charlotte contando seus problemas familiares, como a morte de seus irmãos (todos), por problemas como alcoolismo, drogas e febre tifoide). Essa parte é bem triste.

Mas, onde entra a parte onde Charlotte escreve? Agora! Ela possui inveja de seu irmão Branwell, que possui contos publicados, e sugere às irmãs Emily e Anne para que juntas lancem um volume único de poemas. Como as mulheres não eram bem vistas como escritoras, as Brontë resolveram se lançar no mercado editorial como Irmãos Bell, ideia que tiveram com o sobrenome do pastor auxiliar da paróquia, 

Só que não foi fácil publicar a obra, já que elas tiveram que desembolsar o valor da publicação. E pior: o livro não vingou: em um ano, foram vendidos apenas dois exemplares. Você acha que elas desistiram? Claro que não! Elas deram por finalizado seu trabalho com poemas e conseguiram lançar, às custas da editora, cada uma o seu romance, ao mesmo tempo! Foi assim que foram publicados Jane Eyre (Charlotte), O morro dos ventos uivantes (Emily), e A moradora de Wildfell Hall (Anne). 

As duas irmãs de Charlotte tiveram sucesso moderado na época, ao contrário dela, que teve um sucesso incrível.

O Sr. Smith escreveu para informar que a demanda era quase sem precedentes; em três meses, desde sua publicação, todos os 2.500 exemplares haviam sido vendidos, e Jane Eyre foi para a segunda edição.
Por isso, a casa se beneficiou com dinheiro, mas também com lançamentos literários enviados para as irmãs, que até então não tinham muito acesso. Porém, era hora de seguir em frente e escrever um novo romance. Charlotte tinha dúvidas e receios, após o sucesso de Jane Eyre, mas mesmo assim escreveu Shirley. Com sua publicação, não houve mais como manter o anonimato e Charlotte é convidada para eventos literários, onde faz uma linda amizade com a escritora Elizabeth Gaskell. Seu próximo livro lançado é Villette, com o universo da Bélgica retratado.

Charlotte não era mais uma moça nessa época, ela já possuía mais de trinta anos. Contudo, como sua localização geográfica não favorecia, ela não tinha muitos pretendentes. O primeiro pedido de casamento veio de alguém sem graça, que ainda a pede para esperar por cinco anos, e depois por um personagem bem conhecido nosso, que você já deve imaginar: Sr. Nicholls.

Nossa famosa escritora nega os dois pedidos, mas, ao conversar com o pai e a amiga Ellen, acaba em desentendimentos. Isso porque o pretenso noivo é de posição social inferior à sua, além de não ser favorecido por suas origens. Por não ser correspondido em seus sentimentos, Arthur pede demissão da paróquia e vai embora da região.

Você já ouviu falar que o proibido é mais gostoso? Charlotte resolveu enfrentar a ordem de seu pai, se correspondendo secretamente com o antigo pastor auxiliar, inclusive se encontrando com ele na casa de amigos em comum. É nessa fase que eles começam finalmente a se entender e um equívoco importante é desvendado. 

Tenha em mente que o sr. Nicholls ama Charlotte há oito anos, então ela não pode esperar mais para responder ao pedido de casamento. Assim, pede a benção ao pai, pois pensa em aceitar o pedido, e mais: trará seu marido para a casa, pois não vai abandonar seu progenitor enquanto ele viver. A mesma promessa é feita por seu pretenso noivo, de cuidar do sr. Brontë, e finalmente, aos 38 anos, Charlotte consegue resolver as pendências relacionadas ao seu casamento.

Final feliz? Só que não! Em nenhum momento a vida dos Brontë foi fácil. Veja como Charlotte desabafou em seu diário, sobre a morte de seus queridos irmãos, que partiram os três em oito meses. 

Um ano antes, se um profeta tivesse me alertado sobre o sofrimento que eu experimentaria nos longos meses pela frente - caso houvesse me orientado sobre como reagir naquele junho de 1849, dito o quão miserável e desolada eu me sentiria - eu teria pensado: não serei capaz de suportar isso.

Charlotte Nicholls, como ela passou a se chamar, aprendeu a amar e foi feliz por poucos meses, até sua morte. Ela não chegou a completar 39 anos e um ano de casados, pois ficou doente e morreu. Contudo, conheceu a felicidade conjugal nesse período, por ter um companheiro de alegrias.

O pai, sozinho, foi cuidado por mais seis anos, até seu fim, pelo genro. Arthur casou-se, mais tarde, com uma prima, mas seu coração sempre pertenceu à Charlotte, até o fim de seus dias.

Espero não ter contado demais, mas é que é difícil resistir! Essa resenha ficou imensa, peço que me perdoe, mas o livro é grande, então é um ato perdoável. 

Como você deve ter percebido, esta é uma história linda, mas não é alegre, muito pelo contrário. Anne e Emily tiveram apenas um romance de sucesso cada, e Charlotte, três. Contudo, suas obras se tornaram clássicos e estão presentes em milhões de estantes pelo mundo todo. Eu ganhei do meu marido um exemplar de O morro dos ventos uivantes, há 8 anos, e o guardo com muito carinho. 


Ficha técnica:
Autor: Syrie James
Editora: Record
Ano: 2014
Páginas: 528

Semana que vem estarei de volta com mais uma resenha. Acompanhe! 

8 comentários

  1. Achei uma graça, fiquei encantada com a hirtória !!!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. E quem não se encanta com Charlotte? Ela é uma guerreira!

      Excluir
  2. Ah, como é gratificante você indicar um livro para alguém e a pessoa gostar dele tanto quanto você! Ainda fico admirada quando isso acontece, pois é difícil duas pessoas terem a mesma percepção acerca de uma história.
    Esse livro está entre as melhores leituras de 2017 e fico super feliz que você tenha gostado dele também, amiga. É realmente uma história maravilhosa.
    Eu já tinha lido Jane Eyre no passado e gostei muito da história, mas não conhecia a história das irmãs Brontte. Fiquei encantada em conhecer mais sobre a vida e as obras dessa família de escritores e já li um livro da Anne Brontte, depois de ter concluído a leitura dessas memórias.
    Das irmãs, Charlotte é certamente a mais conhecida. Foi extremamente prazeroso poder acompanhar o processo de criação de suas obras e ver onde ela se inspirou para criar seus personagens. Acho que a partir dessas memórias qualquer outro livro que eu ler das irmãs Brontte terá um gostinho ainda mais especial, por saber tudo pelo que elas passaram para que essas histórias pudessem chegar a nós hoje.

    ResponderExcluir
  3. Quem lê, se encanta mesmo!
    Ainda bem que a Fer indicou essa história lá no grupo!

    Beijos!

    ResponderExcluir
  4. Meu comentário anterior não apareceu, acho que não foi aprovado! De qualquer forma, parabéns pela resenha, ficou completissima! Quanto à história, nem preciso falar que sou apaixonada por ela; fico super feliz que você tenha gostado também. E obrigada pelas palavras, Adorei! Beijinho

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ah, o que responder depois de ler estes comentários?!

      Só tenho a agradecer a você pela indicação! Livro excelente, recomendo muito!
      Beijos.

      Excluir
    2. Agora apareceram os dois comentários, hehehe! Mas esse livro merece todos os comentários possíveis,lindo demais!

      Excluir
    3. Com certeza, adoraria que mais pessoas lessem essa biografia, para terem a oportunidade de conhecerem Charlotte.

      Excluir