Copos e corações aquecidos

20 abril 2018
Assim que entrei pela porta de vidro senti uma diferença imediata, o frio que estava lá fora foi aquecido pelo calor aconchegante do ambiente, meus sentidos ficam embriagados pelo aroma do lugar, entro ainda tremendo, esfregando uma mão na outra para tentar aquecer o corpo que ainda está muito gelado e penso que esse tempo precisa melhorar. 

Não sei ao certo o que pedir, me dirijo ao balcão por que preciso desesperadamente de um café quente. A minha necessidade por esse liquido é desesperadora, eu tenho esses momentos na minha vida, essas vontades; paro em frente ao balcão e um rapaz simpático me dá um sorriso e boa noite, o que tira totalmente a minha a atenção da parede atrás de sua cabeça onde eu estava lendo o cardápio à procura do que iria escolher. 

Ao olhar para mim ele continua a sorrir e percebo que ele tem covinhas, isso faz meus lábios se ergueram num meio sorriso, homens com covinhas sempre me encantaram, mas seus olhos cor de caramelo são na realidade o foco da minha total atenção, me perco distraída naquelas cores por quase um minuto, quando ele quebra o encanto me perguntando.

" Já sabe o que vai ser?" 

Confesso que gostaria de responder, sim, quero seus olhos nos meus me aquecendo mais que o líquido que promete aquecer corações e almas, mas não posso, seria apenas uma maluca que entrou aqui com uma roupa horrível e com um parafuso a menos na cabeça, então me limito a dizer. 


"Não" 

"Se me permite, vou escolher para você, com esse frio nada melhor que um café para aquecer a alma, não é?" 

" Tudo bem" 

Sussurro baixinho, minha capacidade de articulação parece ter sido atingida pela espontaneidade e entusiasmo do homem de olhar penetrante; logo eu uma tagarela de primeira, uma pessoa tão articulada, perder as palavras. 

Limito-me a aguardar enquanto ele registra o pedido misterioso para que eu efetue o pagamento, fico aqui observando quando ele está ali no seu mundo executando sua função, e o que era simples até ontem, passou a ser mágico vindo dele, observá-lo estava me deixando quente. 

"Seu nome?" 

Ele pergunta me encarando com o sorriso torto de novo. 

"Mariana" 

Com isso ele me fala o valor e acerto à conta, ele não deixa de sorrir em momento nenhum e faz tudo com uma animação como se amasse estar ali, e isso me faz admira-lo, torna-o mais encantador.

“Espero que adore, me conte depois" 

Ele pisca e olho nos seus olhos mais uma vez, me perco na cor deles, eu poderia passar a noite aqui, poderia passar o dia de amanhã e o  dia depois de amanhã também. Mas logo me dirijo para o lado pegando o copo que a atende simpática me entrega, procuro não saber o conteúdo esperando que me surpreenda. 

Quando sinto o líquido na minha boca, quente, doce e amargo na medida certa, fecho os olhos, sinto como se estivesse sido aquecida por ele, que o calor que me derrete por dentro e o calor que emana dele para mim. 

Sim a escolha dele foi perfeita e isso me deixa com um sorriso nos lábios, ciente de que seus olhos observam minha reação, olho para ele e ergo o copo balançando a cabeça em agradecimento, colocando minhas luvas vou de encontro ao vento gelado da avenida. 

Apenas na rua percebo que no copo está escrito "Mari, você aqueceu minha noite!". Saio sorrindo pela rua e pensando nos olhos e naquele sorriso torto, decido que preciso voltar lá e faço disso uma rotina, por uma semana, duas, três, um mês, e a cada dia experimento um café novo, com um novo dialogo básico, e um novo copo com uma frase, todas que me fazem sorrir. 

Quando o frio finalmente decidiu dar uma pausa, eu decido ir lá mais uma vez. Ele se surpreende, não é esse horário que venho e estou sem aquela parafernália de roupas que vinham me usando esses dias. 

" Oi"  - eu digo.

" Oi" 

"Tenho uma proposta" – Ao ouvir  eu dizer isso ele abre um sorriso que passou a ser meu. 

"Estou ouvindo" 

"Me dê um copo e uma caneta" 

Ele me dá o que peço, e tento esconder o sorriso para que ele não consiga ler em meu olhar o que estou prestes a fazer. 

"Mesma avenida n°1950 
Te espero as 21:00
=D" 

Entrego o copo em suas mãos e ele me olha, profundamente, consigo ler todas as emoções ali, as vontades, desejos, medos, sonhos, e ele finalmente assente discretamente, me fazendo sair dali com um coração feliz. 

Os copos que estavam guardados em uma prateleira, agora fazem o caminho pelo corredor,  caminho que ele deve percorrer até chegar a mim, pelo caminho ele irá ler e sentir o que aqueceu o meu coração por esse mês, para cada frase minha agora há uma para ele. 

E quando ele enfim abre a porta que esta entreaberta, ele chega com uma torre de copos na mão, e um copo de café quente na outra, mas antes que ele me entregue eu lhe entrego o que eu lhe fiz. 

"Troca essse café por um beijo?"

Um sorriso se espalha no rosto dele, e ele pousa os copos na entrada ao lado da porta. 

"Achei que nunca fosse me pedir"  - ele diz

Sinto sua respiração fica mais próxima da minha, sinto seus lábios encostarem delicadamente nos meus, sinto sua mão envolver meus já emaranhados cabelos, e os meus braços envolverem seu pescoço, primeiro um beijo terno, uma leve mordida, e sinto ele me tomar para si, como se estivesse com fome, nossas línguas se tocando, nossa respiração se acelerando, nossos corpos se envolvendo, e assim como o tom de seus olhos, o aroma de café, ele me toma, e aquece uma parte de mim que seria sempre dele.

Sem ar, ele encosta sua testa na minha, nós olhamos sorrindo, e eu segurando sua mão fecho porta, ele me estende o café que trouxe para mim, eu leio feliz o que escreveu. 

"Os cafés te mantiveram aquecida, espero que me permita fazer isso daqui para a frente" 

Respondo sim com a voz sussurrada e com isso deixamos os copos para trás, e eu posso me perder no caramelo, dos olhos deles, que passam a ser o que vejo  hoje, amanhã e o dia depois de amanhã, para sempre.



Um comentário

  1. Amiga, estava com saudades dos seus textos.
    Amei! Você arrasa sempre!
    Xero!!!

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